Sabedoria e confiança

Não Cheire o Frasco Verde

Uma aventura da adolescência em Pernambuco, um aviso irresistível e uma lição sobre confiar em quem conhece o perigo.

Um frasco verde fechado e um frasco âmbar no chão de uma sala iluminada pelo sol, com o pátio de uma escola brasileira ao fundo.
Ilustração de uma lembrança pessoal.

Eu devia ter uns doze ou treze anos. Era início dos anos 1990, no interior de Pernambuco, e eu tinha acabado de entrar para um clube de Desbravadores. Era curioso, ativo e especialmente interessado em qualquer atividade ao ar livre.

Havia semanas que todos falavam sobre um domingo especial. A atividade lembrava uma mistura de capture the flag com paintball, guardadas as proporções do orçamento. Usávamos frascos de spray reaproveitados, abastecidos com uma solução vermelha. Quando alguém era atingido, surgia uma mancha na roupa que desaparecia pouco depois. Mas desaparecia tarde demais. Alguém já tinha visto. Você estava fora.

Finalmente chegou o domingo. As equipes estavam prontas e todos esperavam perto do pátio. Foi então que o diretor percebeu que havia esquecido a chave da sala dos materiais, inclusive dos produtos necessários para preparar a mistura.

A casa dele não ficava ali ao lado. Felizmente, uma janela havia ficado aberta, e havia um adolescente suficientemente aventureiro por perto.

Eu.

— Ackley, você consegue entrar pela janela e pegar os dois frascos?

Claro que conseguia. Já estava praticamente saindo quando ele me chamou de volta.

— Tem uma coisa importante. Não abra nem cheire o produto do frasco verde.

Concordei e saí correndo.

Mais de trinta anos depois, ainda me pergunto por que alguém diria aquilo a um adolescente curioso. Até aquele momento, cheirar qualquer dos frascos jamais tinha passado pela minha cabeça. Minha missão era simples: entrar, pegar dois frascos e voltar. Agora eu tinha uma pergunta nova.

Por que não cheirar o frasco verde?

Talvez tivesse um cheiro terrível. Talvez fosse engraçado. Talvez fizesse os olhos lacrimejarem. Quando cheguei aos materiais, já havia decidido que uma cheiradinha resolveria a questão. Não ia beber nem derramar. Só cheirar uma vez. Uma investigação bastante modesta, no meu entendimento.

Abri o frasco, aproximei-o do nariz e inspirei.

Minha visão escureceu. No instante seguinte, eu estava sentado no chão.

Não sei dizer exatamente quanto tempo passou, provavelmente apenas alguns momentos. Aos poucos, minha visão voltou. Eu estava tonto, mas finalmente tinha a resposta para aquela pergunta tão importante.

Agora havia outro problema: todos estavam esperando, e eu precisava voltar sem que ninguém percebesse o que tinha acontecido. Peguei os frascos e passei novamente pela janela. Na minha cabeça, talvez eu estivesse andando perfeitamente bem.

Tenho minhas dúvidas.

Entreguei os produtos ao diretor, tentando demonstrar a maior naturalidade possível. A atividade continuou. Até onde me lembro, não contei a ninguém que havia investigado pessoalmente o aviso.

O aviso tinha uma razão

Anos depois, Romanos 7:7–8 deu àquela lembrança outro significado. Paulo descreve como o pecado pode se aproveitar do próprio mandamento que identifica o que é proibido. Reconheço algo disso na minha reação ao frasco verde.

O aviso não criou o perigo. O perigo já estava ali. O aviso existia para me proteger. De alguma forma, consegui transformar uma proteção em convite para experimentar.

Gênesis apresenta um deslocamento semelhante da atenção. Adão e Eva tinham um jardim inteiro, mas a conversa com a serpente se concentrou na única árvore que Deus havia restringido. A tentação consegue diminuir, diante dos nossos olhos, tudo o que recebemos e ampliar aquilo que fomos orientados a deixar de lado.

Não há nada errado com a curiosidade ou com fazer perguntas. A fé cristã não exige que abandonemos a razão. O problema começa quando decidimos que precisamos experimentar o perigo antes de confiar no aviso.

Há lições que não exigem uma ferida. Há respostas que não precisamos descobrir sentados no chão, esperando que a visão volte ao normal.

Talvez exista um “frasco verde” em sua vida: um limite que você já compreende o suficiente para respeitar, mesmo imaginando se atravessá-lo faria tanta diferença. A sabedoria pode começar quando confiamos em quem enxerga o que ainda não conseguimos ver.

Naquele domingo, eu queria saber o que havia dentro do frasco. Descobri. Poderia ter confiado em quem já sabia.

Textos para reflexão: Romanos 7:7–8; Gênesis 2:16–17; Gênesis 3:1–6; Tiago 1:14–16.

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